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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Família Italiana

Confesso que cheguei cheia de medo, afinal a minha experiência com italianos no passado não tinha sido das melhores. Logo quando os vi, gostei de cara deles, vestidos em linho e seda, pareciam saídos de algum filme passado no mediterrâneo, com aquelas roupas frescas e esvoaçantes. 

A mãe na casa dos 60 anos e muito calada, falava bem pouco, mais adiante eu descobri o porquê.. 
O pai também muito quieto mas parecia uma pessoa super simples. Havia um garoto aos seus 19 anos, e também bem quieto mas parecia atento a tudo o que eu falava. Já a filha com seus 23 anos, era a única que se comunicava e prestava atenção no que eu falava, respondia, e parecia a mais interessada.

Há certa altura eu notei que a grande barreira entre nós era o idioma, o tour havia sido escolhido em inglês, e eu apesar de entender italiano, não consigo me comunicar. Subimos o primeiro atrativo turístico e por "coincidência" a menina encontrou um amigo da faculdade que não o via há anos, ambos se formaram na Itália, ela mora atualmente em Londres, e se encontraram hoje onde? No Rio de janeiro, quem diria. E de repente os caladões do meu tour começaram a tagarelar sem parar. Foi quando tive a certeza que a dificuldade era o idioma mesmo.. resultado: perguntei para o pai se ele falava algum outro idioma além do italiano e ele me contestou que falava francês, surpreendente, disse que por tudo o que os ingleses fizeram na Europa, ele não gosta do idioma até hoje, entende mas não fala, e que prefere falar francês. Então voilà, bora falar francês com esse pai! 

Meu tour começou a fluir a partir daí, ele me contou que era jogador de futebol profissional na Itália, e que após se aposentar do esporte, se tornou corredor profissional, correndo as 3 maiores maratonas da Itália, depois o corpo começou a dar sinais graves de problemas segundo ele devido à corrida.. e trocou a corrida pelo ciclismo, se tornando profissional no ciclismo subindo montanhas com elevação altíssimas, logo adquiriu outros problemas também, viu que o corpo é mais inteligente que a mente, viu muitos momentos de sua vida em que sua mente entrou quase em hipnose ou fora do ar, mas como ele tinha um objetivo sempre, o corpo seguia e continuava até o seu limite. Até que agora aos 63 anos ele resolveu usar a bike apenas para lazer. Falou até um pouco tristonho que 'a vida passa muito rápido'.. que ele gostaria de continuar fazendo muito mais coisas se não fosse a limitação de seu corpo agora já envelhecendo.. 

A esposa começou ganhar um pouco de confiança comigo quando eu entendi o que ela buscava fragrâncias, ela queria levar um pouco do Brasil para revender na Itália, logo me lembrei da l'occitane au Bresil, já seria de grande avanço com produtos (essências de frutas brasileiras) autenticamente brasileiros que ela poderia se deliciar, então montei uma lista de coisas que atualmente os turistas estão doidos para comprar, assim como Havaianas e Farm Rio, além de quando não é camiseta de time de futebol é biquíni brasileiro. O que a jovem de 23 anos adorou quando mostrei os biquínis, parece que li os pensamentos dela. 

O jovem de 19 anos me disse estar triste pois queria já estar estudando na universidade, ele adorou o curso que entrou e está ansioso por voltar a estudar, ele está estudando Business Management assim como a irmã, a diferença é que ele se encontrou ou pensa que dentro do marketing. Me contou que assim que voltar pra Itália vai esquiar mas que ele não é muito bom não, eu dei uma dica "va treinar skate ou surf onde você conseguir, vai te dar o balanço pra vc conseguir surfar no snowboard, lição de casa", eu falei com propriedade, afinal foi como eu sobrevivi no snowboard descendo a pista azul sem morrer kkkkk (não sabia que tinha níveis de pistas, fui logo pra preta e depois pra azul, quase caí de um precipício mas Deus estava no comando..rs). Ele apertou a minha mão, deal, ele tinha um compromisso de férias a fazer, entender e aprender a se equilibrar na prancha, antes de se aventurar morro a baixo. 

Enquanto a irmã não sabe o que estudar, disse que a faculdade dá um leque de opções, deixando ela confusa sobre o que arriscar e onde aplicar seus conhecimentos. Logo emendou em o quanto ela quer conhecer o brasil, ela quer ir nos Lençóis Maranhenses, Jericoacoara, Manaus e por aí vai. Logo trocamos figurinhas pois tenho conhecimentos em alguns desses locais embora já tenha um par de anos desde quando estive por lá.

No mais, passamos dois dias juntos em que pude ver uma família unida, com seu filho e pai correndo para tirar fotos na cachoeira, enquanto a mãe e a filha se abrigaram da chuva embaixo da marquise, toparam cruzar um riacho que se formava bem diante de nossos pés, e o jovem dava risada de tamanha aventura, pegamos o maior toró saindo da segunda maior floresta urbana do mundo. 

Enquanto eles tinham medo de cruzarmos o caminho por uma inundação, eu os explicava que felizmente lá embaixo tem um bom escoamento devido ao mangue, Rio que junta com o mar, mas só acreditaram quando atravessamos tudo e não viram nada do que imaginavam, o medo estava apenas em suas cabeças kkkkk.. 

E a nossa jornada encerrou, com largos sorrisos, eu estava grata pela oportunidade de ter aprendido um pouco mais sobre eles, como vivem, e o que gostam. O senhor virou de costas, abriu a carteira, catou umas notas 'a lá banco imobiliário' e pá, deu algumas na minha mão. Quando entrei no carro que vi, surpresa! Realmente eu não podia imaginar, não só as notas entraram no meu bolso, mas a família inteira entrou no meu coração

Um tour nunca é igual ao outro! 
Ainda bem e amém.