Eu me desloquei para SP, para ver uma peça de teatro, rever meus amigos e relembrar coisas de um passado distante, em prol de criar uma nova realidade. Parece ate papo de maluco.. mas vamos ao que interessa!
A peça era de um autor conhecido por seus textos contrastantes, não quero dar nome aos bois, e nem ao elenco, apenas contextualizar o meu entendimento, até porque cada um vê o ângulo que consegue na hora que precisa ver... ou vê o que está ao alcance naquele momento.
A peça começava com uma musica animadora, família feliz, aquela alegria quase praiana, em menos de 5 minutos pulou para um drama, que na mesma medida meu coração se encheu de tristeza, nem eu entendi o que havia acontecido comigo, afinal eu não costumava ser uma pessoa "manteiga" que se derrete tão rapidamente em fogo brando. Então eu consegui me autorregular, afinal o sofrimento não era meu, e sim do ator em cena.
Foi um tal de corre aqui pra ali, a peça gira em torno de um assassinato, uma família que convive com um suposto assassino (vulgo pai de família) dentro de casa, muito auspicioso inclusive, a esposa vive num drama há 19 anos se o marido matou ou não uma pessoa no dia de seu próprio casamento, imagina a pessoa viver esse tantão de vida sem saber se vive uma ilusão ou de fato dorme com seu assassino favorito.
A família é desregulada, não apenas pelo suposto assassinato, mas pelo pé de desigualdade mental, seria um festival para qualquer psiquiátrica, mãe narcisista, filhos de características psicológicas duvidáveis, e pai psicopata. A família "ideal", só que não. Lá pelas tantas, é spoiler atrás de spoiler, a filha deixa todos saberem que ela quer ser a única da família, ela quer ser vista, não é apenas sofrer por validação externa, mas ela quer ser a filha única, sendo que ela tem nada mais e nada menos do que mais 3 irmãos. Pá, essa tá facil.. segura o tchan, amarra o tchan tchan tchan tchan, e irmã após irmã morrem afogadas, pelas mãos de quem? aparentemente mãos sem controle.. consciências inconscientes ou consciências inconsistentes? Para não dizer nas más línguas outras cositas más..
O filho aparentemente inocente, jovial, quase um mergulhador profissional. Esse acredita no amor da própria mãe, desacredita do amor do pai, e vê a maldade da irmã adoecida da cabeça, belamente interpretada como num "espelho, espelho meu, quem é a moça mais bela do que eu", e ai de quem lhe dizer o contrário, vapo vapo, cabeças iriam rolar.
Lá pelas tantas, o marido atordoado pela fantasma da assassinada e pelas cobranças da esposa, resolve confessar que cometeu o crime, a família pira, pirada, pirou! Menos o filho jovem inocente que nada vê. A esposa foge com quem ela menos gostava, pois descobre que se sentiu enganada e traída o tempo todo, foge com o futuro esposo da filha, ele mesmo que seguia desde sempre numa vingança ferrenha para vingar a morte de sua mãe há 19 anos, nem com o sucessor essa mulher (mãe) conseguiu ser feliz no segundo ato de sua vida, acreditando que após 19 anos seu destino seria bem sucedido, a ilusão amarga. Após uma noite de núpcias, o filho descobre a traição da mãe, logo quem estava viajando na maionese marinha, vê a mãe com o suposto traidor, e mata ambos. A pobre mãe iludida, mal amada, sofrida, morreu nos 45 segundos do segundo tempo. O filho mergulhador vira de uma inocente criatura à uma besta, tal pai tal filho. E a luta segue, de quem vê apenas sombras, nessa noite escura de almas familiares que não se enxergam mas se refletem entre si..
Entre 4 irmãos, sobraram dois, mãe morta. Só restou a avó, o pai e a filha, adiantando alguns momentos, a avó largada pela neta, morre de fome, ironia do destino, contado de forma até divertida se não fosse trágica, lembrando que era uma peça de teatro muito bem escrita e organizada por sinal.
Refazendo os cálculos, sobrou a 'Rainha Má da branca de neve' (a filha) e o pai (o assassino). E enquanto a rainha da cocada branca discute consigo mesma ao reflexo de sua mãe no espelho, sobre perder o domínio de suas mães e seus desejos mais íntimos, ela perde a morte espontânea de seu pai, em um ataque fulminante cardíaco, falando sozinha, alegre e feliz no seu jogo do Resta 1.
Pulei os figurantes e semi figurantes, as vizinhas representando as máscaras, os jogos de opostos, mais como somos diariamente, ou seja nosso ego, em nossas mudanças de opiniões constantes como as ondas do mar, entre o medo e a culpa, como um demoniozinho assoprando ao pé do ouvido. A vida segue como num jogo de xadrez, até ironizarmos um xeque-mate reto e direto.
A peça encerra numa mistura de drama da vida real, apesar da 'morte e vida severina', o renascimento se faz presente, saímos todos com pulgas atrás da orelha de quem realmente somos e o que estamos escondendo de nós mesmos que nem o espelho de nossas almas nos mostra, que claramente em algum lugar de nosso subconsciente, cedo ou tarde há de retornar a dor dilacerante de um dia acordar!
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